Aconteceu que sonhei demais

Acordei numa manhã com pensamentos na minha cabeça do que seria o mundo ideal e acabei pensando mais do que eu acho que deveria ter pensado. Muita coisa mudou, muita coisa era perfeita demais para ser realidade e nem eu mesmo sabia até onde minha cabeça estava me enganando.

Tinham anjos e demônios aparentes andando do meu lado e no lado de todo mundo que ali estava. O ser apresentado como ele sendo ele mesmo, sem um corpo, sem uma aparência maquiada. Uma utopia que pensei dentro de minha cabeça vazia cheia de pensamentos que nunca vou entender.

Será que as pessoas são mesmo o que aparentam ser ou apenas disfarçam? A dor existe e a mentira também. Os pensamentos mais abertos são os mais fechados e os mais fechados são os que realmente precisam de uma válvula de escape para que possam ser pensamentos grandiosos e não tão secretos assim.

O segredo que você guarda no seu coração é o segredo do que sonhei e que provavelmente não haverá explicações. Explicações de pensamentos que penso que não são utopias e que não são pensamentos pensados mas uma verdade que na verdade nunca existiu, afinal a verdade é aquilo que pensamos ser.

Prefiro voltar a dormir e pensar que era verdade que o que aconteceu na verdade é que sonhei demais e meu sonho era menos confuso do que minhas confusões que nem você entendeu e eu que penso que você não entendeu pois isso se tornou uma verdade minha. Ou sua.

Confusão de uma mente perdida

Não sei ao certo o que aconteceu naquela noite passada. Acordei no chão de uma casa desconhecida. Estava nua.

Desse momento em diante eu queria gritar mas não tinha força suficiente para fazer isso. Não sei se era desespero ou medo ou realmente haviam me esgotado. A sensação que tive foi a pior possível e não tinha mais dúvida alguma que fui sequestrada e haviam abusado de mim.

Mas porque eu? Porque uma pessoa que não tinha nada para dar a estas pessoas, ou esta pessoa, não sei. Meus pensamentos estavam confusos, não sabia no que dizer e nem ao menos no que fazer em relação aquilo.

Passou algum tempo que havia acordado, estava recolhida em um canto da parede fria. Pude ouvir que chovia do lado de fora mas não tinha noção alguma de tempo ou quanto tempo estava ali naquela situação.

Entra um homem com um capuz preto apenas que mostrava sua boca e seus olhos junto a uma mulher também de mesma maneira. Os dois vestiam uma espécie de armadura, algo estranho como se fossem fitas pelo corpo, tampando apenas suas partes intimas. Comecei a respirar cada segundo mais forte e o medo não me permitiu que falasse nada a não ser ficar ali naquele canto da parede, olhando assustada para aquelas pessoas.

O homem me pega com força, me coloca de bruços no chão e coloca uma algema em mim. Meus olhos lacrimejavam e minha respiração era cada hora mais forte. Então me coloca sentada de joelhos em frente a ele. A mulher me dá um beijo. Ela sem falar nada olha para ele e balança a cabeça como se estivera concordando com algo. Meus olhos lacrimejavam cada hora mais.

“Está na sua hora”. Ele diz, quase que murmurando. A mulher olha em meus olhos e tira a parte de cima daquela roupa, se assim posso dizer. Ele sai do recinto que eu estava. Não haviam móveis, apenas paredes brancas e uma janela que não conseguia ver o que se passava do lado de fora.

Sentia medo a cada instante que ficava ali. Medo de acontecer o pior para mim.

Segundos se passavam enquanto via a minha vida inteira passando em minha cabeça, desde a infância até os momentos de que estava ali acontecendo e pensando no que poderia acontecer dali para frente. Ofegante já e a outra mulher já estava completamente nua em minha frente alisando meu corpo e eu, desprotegida, sem conseguir falar nada e com as mãos presas estava que nem um boneco qualquer sem atitude.

Alguns instantes depois, o homem que antes estava lá entra na sala também com uma vela em sua mão e vem em minha direção. Neste momento ela se afasta de mim e fica observando e eu não consegui identificar momento algum qual era a reação dela a qualquer coisa, exceto um pedaço de sorriso e seus olhos.

Cai uma gota de parafina quente em cima de mim. E mais outra e assim por diante. Quase umas 20 gotas quentes e eu com aquele ardor no corpo e a cada novo pingo suspirava e soltava um leve gemido que vinha de dentro sem conseguir controlar. Não demorou muito para que os olhos dele se fixassem em meus olhos durante segundos, o suficiente para que ele parasse.

Não sei ao certo se o que já estava sentido era mesmo dor ou medo. Por alguns instantes estava gostando do que passara comigo naquele instante. No momento que ele me olhou, minha respiração se acalmou como se os olhos dele tivessem um recado pronto para me dar dizendo que aquilo seria bom para mim e que me acalmasse.

Passou um tempo, a mulher saiu da sala que estávamos, ficando apenas eu e ele e então ele começou a acariciar meus órgãos privados de maneira que nunca antes teria sido tocada. Sim, foi uma invasão de privacidade que nunca antes em minha vida havia tido. Quando percebi, ele já estava dentro de mim e eu não sentia mais medo, sentia apenas dor e prazer no mesmo instante. Não sei ao certo como isso aconteceu comigo, mas foi algo que mudou tudo completamente naquele momento.

Ele terminou e se despejou em cima de mim. “Você precisava disso. Você precisa viver mais e provavelmente não sabia disso”, murmurou em meu ouvido. Estava exausta naquele instante. Não sabia o que se passou comigo e muito menos quem eram aquelas pessoas. Após o ato, senti um cansaço extremo e vi sangue no chão mas não tive tempo o suficiente para me preocupar antes que eu caísse no sono mais uma vez.

Sonhei.

Não sei exatamente por quanto tempo fiquei desacordada desde aquele momento mas meus sonhos foram de alguma forma de uma maneira tão maluca que me imaginei como um homem naquele instante, não sabia mais se era uma vontade que tinha dentro de mim ou se era a falta de alguma outra coisa que pudesse acontecer.

Simplesmente tudo foi esquentando mais e mais. Ela, uma garota magra e de rosto simpático, tirava minha camisa e desabotoava meu cinto que estava usando. Dava alguns beijos e levanta vagarosamente, segurando as minhas mãos, colocando-as em sua cintura. A parte de cima de nossos corpos estavam se tocando com tanta facilidade e eu podia sentir a ponta dos seus seios em meu corpo. Tão macios.

Ela desce sobre o meu corpo até ficar de joelhos na minha frente e termina de descer a minha calça. Eu ajudo ela a retirar. Beija vagarosamente a minha cueca que já demonstrava tudo o que tinha por baixo, ainda mais que por tanta excitação que estivera já, minhas partes intimas estavam incabíveis dentro daquela peça de roupa que estavam a mostra. Ela se levanta e pede para que eu retire a sua calça.

Ela novamente pega as minhas mãos, e agora, totalmente nus que estávamos, leva as minhas mãos até seus seios para que eu pudesse sentir. Tão leves e macios que pareciam naquele momento. Vai sentando no sofá, abrindo as pernas, mostrando tudo que pudesse mostrar e nunca tivera na “velha infância”.

Coloquei a minha mão na parte de baixo do corpo dela e senti como estava. Pronta para que acontecesse qualquer coisa. Levemente os nossos corpos estavam naquele momento juntos.

De repente o telefone toca. Era noite de domingo. Acordei daquele sonho bizarro que tivera durante não sei quanto tempo porém me despertou alguns desejos que antes não tinha. Apenas fiquei curiosa para saber o que se passou no final de tudo, mesmo sabendo que esse tudo não se passou de um sonho.

Atendi o telefone porém estava completamente mudo. Eu estava novamente em casa. Estava em minha cama, de roupa e tudo mais. Não sei mais até que ponto havia sonhado aquilo tudo e até que parte era imaginação minha. O fato é que tinham marcas no meu corpo, avermelhadas.

Fiquei acordada até algumas horas da manhã pensando sobre aquilo e o que passou comigo. Se deveria ir denunciar aquilo ou não deveria falar nada para ninguém, afinal não sei quem eram as pessoas e muito menos o que se passou e se passou, como sabiam onde é a minha casa e porque logo eu? Com certeza poderia ter sido alguém conhecido porém esperto o suficiente para conseguir me sedar desta forma e misturar esses sentimentos de prazer, dor, medo e muitas outras coisas que se passaram em minha cabeça.

Adormeci em algum momento que não me lembro as horas. No outro dia de qualquer forma teria de ir trabalhar.

Respirando fundo

Era uma amanhã como qualquer outra na rua de chão de terra, num bairro pobre mas não mais rural, uma vez que o governo mudou muita coisa ali durante os anos que se passaram e acabaram esquecendo da comunidade em que eu morava.

O sol estava nascendo e mais um dia iria começar e eu não entenderia ainda alguns porquê de minha vida. Lágrimas logo cedo ao levantar eram mais que esperadas, como sempre. Apenas levanto e vou tomar meu café da manhã. Já tinha certeza que mais nada iria mudar dali para frente a não ser o que sempre fizera.

Meus pais haviam falecido há pouco tempo, para mim. Quase um ano que se partiram e hoje estou aqui sozinha neste lugar que me deixaram. Foi um trágico acidente no centro da cidade que foi anunciado aos quatro ventos pela grade mídia e eu, em casa, assisti tudo pela televisão até que recebi a notícia. Obviamente que entrei em prantos naquele momento mas foi forte o suficiente para aguentar.

Segui em frente na vida sabendo que não poderia deixar o passado ficar me prendendo como já havia visto em alguns filmes que assisti pela televisão na Sessão da Tarde enquanto ainda não trabalhava para me sustentar e também junto ao meu irmão. Foram momentos difíceis mas continuei com cabeça erguida.

Tomei meu café, apenas um pão velho de ontem com um café que quase deixei a água inteira evaporar graças aos meus pensamentos que não paravam a nenhum instante. Algo que já era comum em minha vida e, acredito eu, por causa de lembranças.

Teria me arrumar. Apesar do sol já estar forte, deveria ir ao centro até as dez da manhã para iniciar a minha jornada de trabalho em um shopping da cidade. Trabalhava como atendente de uma lanchonete e às vezes me colocavam também para fazer algumas coisas na cozinha de lá. Não era assim tão difícil, afinal quase tudo já vinha pronto, bastava colocar naquelas máquinas qualquer que tinham e então já estava pronta a comida do cliente.

Hora de sair. Caminhava com um pouco de cuidado naquela rua para não sujar muito a roupa que estava. Dentro de minha bolsa, apenas alguns documentos, o trocado para pagar o ônibus e um outro calçado para quando chegar, poder trocar para a roupa que tivera de vestir. Minha grande sorte é que como meu expediente começava já um pouco tarde, não precisava me preocupar tanto assim com o transito pesado que lá tinha e um pouco menos de uma hora e meia estaria lá, exceto se eu desse a má sorte de ter algum acidente no caminho do ônibus que então sigo até o metrô para chegar ao trabalho.

Não era casada, não namorava e muito menos estava atrás de alguém durante um bom período de tempo. Nunca tive sorte com o amor apesar de ter vários namorados durante toda a minha fase de escola. Parei de ir à escola quando terminei o ensino médio, já que meus pais não tinham mais condições de bancar uma faculdade com o emprego que tinham. Minha mãe, Paula, tinha um emprego numa confecção de roupas e uma longa jornada de trabalho para ganhar uma miséria enquanto meu pai, Roberto, gastava quase todo o seu dinheiro de motorista com bebidas durante as noites que chegava tarde.

Já tinha desistido de viver, apenas sobreviver. Sabia que iria ser assim pelo resto da vida. Havia desistido de muitas coisas e muitos sonhos que jurava querer realizar quando criança. Adoraria ter sido uma bióloga graças a um cachorro que eu tinha e brincava com ele todos os dias quando podia.

Meus pensamentos me levanto para longe até que chego ao trabalho. O shopping quase no horário de abrir, cheguei cedo. Era sábado. O movimento não seria tão grande assim pois não era feriado e nem teria nada demais na cidade e onde eu trabalhava não eram tantos pedidos assim que deveria atender.

Tenho uma grande amizade que acabei fazendo neste restaurante, Patrícia. Ela é um pouco mais jovem e também muito mais animada que todos os outros. Falava o tempo todo sobre a suas experiências com seu namorado e estava juntando dinheiro para realizar o seu sonho de se casar com ele dentro de um ano. O rapaz em que estava junta também trabalhava no shopping e sempre ele passava na frente da gente apenas para dar aquela checada e com sorriso tímido porém feliz.

Estava confusa em relação a gostar de outra pessoa dessa forma. Não sei se seria realmente feliz. Lembrava de meu pai a todo instante e como ele era junto com a minha mãe. Desde que faleceram, não sei se foi algo bom ou ruim que se passou, sei que pelo menos naquele dia os dois conseguiam ficar juntos e acredito eu que não estavam passando por muitos apertos do relacionamento dos dois.

Continuei o dia inteiro no restaurante apenas atendendo mais e mais pessoas que assim passavam por lá, até que estava errada ao pensar que não teria movimento pois acabou tendo. Já era quase dez da noite e então hora de voltar para casa antes que fosse tarde. Me despedi dos outros amigos do trabalho e segui conversando com a Patricia até o metro para o primeiro trajeto até em casa.

“Bruna, porque você não aproveita que amanhã não vamos ter que trabalhar e vem sair com a gente?”, ela fazia o convite para que eu fosse a uma casa noturna junto com o namorado dela. Não pude pensar muito, não teria dinheiro sequer para pagar um taxi até em casa e teria de me virar no transporte público que depois de meia noite já praticamente não existia. Ela não sabia, definitivamente, que minha condição de vida não era ao menos próxima da dela que morava próxima ao centro.

Segui meu caminho até o metro, me despedindo dela e do namorado. A estação estava cheia. Segui meu caminho em direção à estação da Luz para pegar o segundo metro e então, na rodoviária, pegar meu ônibus para casa.

Não demorei muito para que chegasse no bairro em que morava. Agora, de noite, sentia um pouco de medo ao caminhar naquele lugar, afinal, a iluminação era apenas de um poste aqui e outro ali, luzes amareladas, aquele chão vermelho e estava prestes a começar uma chuva que dava para sentir a brisa do vento frio vindo em minha direção. A única coisa que pensava era chegar em casa e dormir para que no domingo eu pudesse passar o dia vendo televisão, ou esperando que algum milagre acontecesse.

Quando menos esperava tudo se apagou em minha frente no meio daquela caminhada. Não consegui nem ao menos gritar, apenas senti que estavam me colocando em algum veículo. Estava desesperada mas acabei dormindo de alguma forma. Não lembrava de nada o que se passou daquele momento.