Dia 15, Setembro.

Minha, meu. Independente do que eu pense, hoje vou sorrir mais uma vez. Meu rosto inchado do último tapa que me deste e ainda com as marcas de seus dedos ainda me sinto acariciada por tudo isso como se esse calor na verdade fosse seu e não aquele produzido por mim.

Loucura? Loucura seria se eu tivesse colocado fogos em todas as partes perto de sua casa para te acordar mais uma vez de noite assustado com a lembrança de nosso último setembro na beira de um lago segurando aquelas velas especiais que víamos o reflexo na água.

Não fui contida pela lágrima maldita que insistiu em descer da lembrança mais profunda e que eu finalmente me despedi diversas vezes e busquei a felicidade. Meus pés descalços estão novamente caminhando sob as árvores recheadas em flores amarelas gritando com o meu eu interior.

Mandei um beijo para o vento, levitei sobre a grama não mais tão verde e observei os vazios de uma noite iluminada por apenas um poste qualquer na rua perto de meia-noite, meia vida para mim? Sentei-me em um balanço que estava indo e voltando sendo empurrado pelo vento porém comigo em cima nada mais aconteceu. Estava ali novamente e só.

Me sinto feliz, me sinto com um vazio, não me sinto mais. Será que chegou o momento de simplesmente achar que metade de mim se desfez quando acreditei na alegria e que havia me libertado de tudo que havia feito antes? Bobagem.

p.s.: preciso fechar meus olhos da realidade

Dia 14, Setembro.

Para você. Mais uma vez.

Sinto felicidade e sinto ódio de mim e de você ao mesmo tempo há tanto tempo que não sei mais quem sou. Já me perdi na personalidade qualquer em que vivo e que insisto em continuar. Não sinto mais amor: por ninguém, nem por mim, mais.

Observo do alto do prédio os carros passando em câmera lenta como se estivessem com um efeito bokeh em meus olhos, efeitos de miopia que foi criada em mim durante tanto tempo.

Pedi, perdi e ganhei e ignorei tanto tempo junto que nem sei mais o que sou. Eis o fato mais concreto de minha vida. Apenas gostaria de saber se realmente ainda existo mesmo tendo enfrentado de frente a Dona Morte e ter pedido a ela que me levasse diversas vezes inconscientes de mim mesma.

Meu papel quase um papiro evoluiu depois de tantos anos perdida aqui neste porão interior que sempre acreditei ser um meio perdido. Os momentos de alegria não passaram de horas felizes apenas e continuo aqui me lamentando por cada lágrima que ainda não tivera escorrido de meus olhos, aqueles que quase já não existem mais.

Meu sorriso bobo não diz nada e nem o quanto mais você pense que sou inteligente ou ignorante. Apenas me ignore e vá embora de uma só vez pois eu ainda tenho esse passado recente em minha cabeça batendo em mim a cada segundo que continuo respirando ou apenas minha alma me observa calada pensando naquilo que não fez um dia.

p.s.: não sei o que te dizer mais.

Dia 13, Setembro.

Confissões abandonadas em meio a frases absurdas das quais eu estou submerso. Inverso ou não, de trás para frente ou sim – não sei mais como vou levando para frente tudo isso que eu um dia desejei.

Me perdi em pedaços diversos que não sei mais de onde venho ou para onde irei. Sou um momento confuso pregado no chão com os olhos em lágrimas e que me repreendo entre a morte, a paixão, o prazer e a luxuria.

Meu sorriso não é sincero, você sabe. Você nunca me julgou assim de qualquer forma, então não fizera diferença alguma em saber do que estou ainda fazendo por aqui. Apenas desejos inconscientes e presentes dentro de mim.

p.s.: Não sei mais o que fazer, definitivamente.

Dia 12, Setembro.

Socorro, me colocaram uma venda e não consigo mais enxergar nada. As ultimas coisas que me lembro era enquanto ainda estava ali dentro de mim e nada mais aconteceu. Apenas meu corpo e minha mente se separaram por aqueles instantes e eu não mais estaria ali.

Acredito eu que não estivera mais ali neste mundo, foi algo tão diferente e tão complexo que não conseguirei nunca explicar, apenas pelo intermédio do que eu senti que posso tentar dizer o que aconteceu de verdade mas na verdade nem sei ao certo o que aconteceu, isso é, se realmente o que eu digo é a realidade.

Me colocaram cordas, amarraram-me em uma cadeira frágil qualquer e atearam fogo em mim e em minhas esperanças naquele dia. Agora não sei mais o porque ainda continuo aqui preso neste lugar, sem destino, sem uma lição e sem mais nada do que eu possa fazer para tentar me reanimar.

Sou um corpo, ou melhor, uma alma qualquer que vaga pelo mundo que canta poesias, que se cria através de prosas, que vê em objetos naturais um refúgio qualquer mesmo sabendo que não deveria mais estar por aqui.

Me joguem em um buraco qualquer, onde tenham luzes fracas mas da maior intensidade possível, queime meus últimos recados e me faça renascer mais uma vez, imploro por perdão da vida, imploro por aquilo que não tenho feito mais e gostaria de ter mais uma vez, por mais que eu não considere isso tão bom pra mim.

É uma carta qualquer, um gesto qualquer que passo que sinto, que sobrevivo, talvez não tão vivo assim. Poderia ser mais que isso mas eu pedi que fosse assim no final das contas. Aquelas cordas e aquela venda em meus olhos foram pedidos de mim a mim mesmo num último respiro de liberdade antes de me vender para o mundo e fazer mil e uma maluquices que me derrubaram, me quebraram, jogaram no chão como um indulgente qualquer. Pobres coitados, além de mim.

Pobres de alma, podres por dentro, com germes que consomem a sociedade sem saber. Eu sou você e eu sou todos nós ao mesmo tempo, eu sou um padrão imposto pela mídia, sou um homem que segue conceitos de séculos atrás e ainda acredita que estou certo de tudo e esqueci o quanto mudamos com o passar das horas, dias, meses e anos.

Queria mais, queria liberdade e quem me mandou pensar? A liberdade de quem pensa é a morte, ainda mais quando se está desacompanhado ou te acham qualquer coisa sem dar o seu devido valor. Penso, logo tento existir, tento refletir, pensar de verdade mas não, me colocaram venda, atearam fogo, me esqueceram num lugar escuro de uma marginal qualquer de rodovia interestadual só para ignorar a minha existência e o meu pensamento, minha força e minha opinião que tanto incomodou aqueles que critiquei num momento por mais que fosse oportuno.

Modas e vícios, estou corroendo cada hora mais, me salve antes que o que me restara de mente suma, pois meu corpo está apodrecido e consumido pelos germes. Meu apelo para meu último adeus antes de partir de verdade, antes de dizer que não a amei, antes de escrever meu ultimo verso dizendo um até breve.

Dia 11, Setembro.

O tempo passou. Meu relógio não está mais parado.

Encontrei a esperança sorrindo pra mim na porta do meu quarto. Ela estava ali todo esse tempo e não tinha a visto até então, sempre ignorei ou nem mesmo sei o que se passava por mim, só sei que as coisas agora mudaram e eu estou me sentindo livre, estou me sentindo bem a cada instante e a cada momento, por mais que o passado recente ainda venha me visitar às vezes.

Me perguntaram sobre eu estar substituindo alguém em minha vida e a minha resposta foi curta e sincera: Não. Não vou substituir ninguém, sempre quero construir algo novo, algo bom e algo único com as pessoas que estiverem à minha volta e assim será. Mas também não quero deixar de ter momentos de prazer, de vida, de experiências por causa que isso ou aquilo antes eu fizera com outro alguém.

Passou tanto tempo que aquelas brincadeiras e aqueles sorrisos perderam a graça. Eu sei que fui substituído, foi uma seleção natural à partir dos fatos que vieram a acontecer. Meu coração vai se renovar. Um lugar vai ficar com a luz apagada e acumulando poeira. Sei que posso trancar aquela porta agora e jogar a chave em um canto qualquer pois sei que não mais voltará o que era antes até poder voltar ao lugar onde estivera.

Bom, o tempo passou. Agora meu desejo é sorrir de novo, mudar de novo, ouvir músicas que não tenham mais nada de ruim dentro delas, apenas felicidade e alegria. Que não tenha mais nenhum vestígio de rancor mas que tenha as boas lembranças registradas e que estas nunca sejam apagadas, por mais que eu agora, neste momento não queira mais recordar o seu jeito, apenas para não me derramar em lágrimas mais uma vez.

Anda logo, voltei pra onde eu vim e vou fazer um novo final, agora mais experiente e com um grande sorriso no meu rosto. Quebrarei barreiras e por mais que  fique feliz nem que seja apenas sozinho, quero ser feliz e quem estiver ao meu lado quero que esteja também.

Se alguma hora o que chamei de felicidade por muito tempo voltar e eu não estiver, mande procurar a chave que joguei ali no chão, abrir e reformar; renascer o que fora antes e depois, se não for mais tão tarde demais, voltar. Mas mesmo assim sabendo que tudo mudou, está diferente e, pra mim, não mais serei o mesmo de antes pois o medo me levou para o hospital diversas vezes e agora já sei lidar para não ter ele me derrubando mais uma vez, nesta situação.

Dia 10, Setembro.

A força do pensamento é enorme e nossos pressentimentos, às vezes são apenas avisos do que pode realmente vir a acontecer. Em muitos momentos havia desejado que os bons pensamentos tomassem conta daquela pessoa e que ela pudesse abrir os olhos antes que fossem tarde demais. Hoje se passam três dias desde que tivera coragem para os últimos pensamentos e nestes dias houveram mudanças de comportamento. Ao acordar, pego meu celular e vejo as notificações que nele haviam chegado durante aquela noite e dentre tantas, havia uma notificação dela. Apesar de um mero “bom dia”, já percebi que haviam tido mudanças naquele comportamento que talvez outrora era de vergonha ou ódio ou alguma coisa que não percebera antes. Respondi-a igualmente e nas mensagens seguintes que trocamos percebi uma tentativa de reaproximação, como se quisesse falar um pedido de desculpas menos formalmente. Infelizmente meu coração já está novamente endurecido pois as chamas que outrora o aqueciam já não estavam mais ali o alimentando, virou pedra, uma rocha que deverá ser recomposta aos poucos novamente mas agora não será mais tão fácil. O medo de tudo acontecer de novo me domina mas ao mesmo tempo fico confortável sabendo que pessoas que estavam ali ao meu lado a bastante tempo, ainda estão de pé e de mãos estendidas. Fico com medo de perde-las também, obviamente, mas a ultima vez me deixou algumas marcas e como toda marca, a primeira vez sempre é a pior e depois vamos nós acostumando vagarosamente com a situação e já não machuca mais tanto. Penso comigo mesmo, falando baixo quase sussurrando no quarto escuro — Porque tenho tanto medo da partida de algumas pessoas sabendo que este é o pensamento mais certo que teremos. Se não fosse agora, seria outrora, não somos tão eternos quanto pensamos. Perdemos o contato, perdemos os olhares, perdemos a memória… felizmente não perdemos a lembrança, lembrança de dias que foram os dias melhores pra sempre e agora estão em nossos corações. — Hora de abrir um sorriso, não colocar mais tanta esperança onde talvez não exista mas esperar que aos poucos vamos redistribuindo para os lugares certos. Confesso que andei experimentando novos abraços e observando novos sorrisos e olhares. Eles me encantam tanto quanto aqueles que eu estaria acostumado mas não quero jogar fora o que há de bom — inocência — mas às vezes queria arriscar mais vezes com outras pessoas à minha volta aquilo que eu acharia que só pudera fazer com uma única pessoa mas estivera errado o tempo todo. Sozinho sou nada, em dupla também não. Este mundo não é tão fácil quanto esperamos que fosse e é difícil conseguir um sorriso. Sejam esses os bem-aventurados que aqui vivem. Seguirei o meu caminho e espero o melhor praquilo que outrora foi o que chamei de felicidade e continuo em busca de saber quem eu sou. Serei tolo, serei faminto. Não pretendo deixar de ser.

Dia 9, Setembro.

Fiquei preso em meus pensamentos, os mais diversos possíveis e que não poderia imaginar antes. Senti um vazio por alguns instantes, fechei meus olhos e vi que aquilo tudo que passou estava aos poucos saindo e morrendo dentro de mim. Na verdade, morrendo não mas sim sendo ocultado aos poucos e começando a ficar cheio de poeira enquanto novas antigas pessoas recomeçam a tomar à frente na minha vida. Achei que teria me esquecido de muitos deles mas não, sempre estiveram ali com o mesmo sorriso, com a mesma disposição e com o mesmo velho humor de sempre. Voltei a pensar naquilo que até um certo tempo julgava como a minha felicidade plena, olhei novamente as fotos, os textos, as lembranças, as mensagens… Posso parecer uma pedra meio lapidada às vezes mas por dentro o diamante é derretido mas ferve como lava, quente, parado, pulsando. Senti por um instante que alguma coisa estava a acontecer, não estou disposto a abandonar ninguém nesta altura do campeonato, seja lá quem for. Abri os olhos e sussurrei a mim mesmo: “Muitos dizem sim a todos os momentos, mas porque sim, ou seria melhor se perguntar… porque não?” – completo em pensamento – “um sentimento que fora criado não deverá ser simplesmente retirado de dentro de nós e jogado fora, seria um capítulo de uma novela chamada vida, seria eu e quem está a minha volta apenas coadjuvantes ou atores principais?”. Peguei meu telefone e digitei uma mensagem perguntando o que estaria a acontecer naquele momento pois sentira que não estava em uma situação agradável e precisaria de mim. — Fechei os olhos. Respirei forte, fitei meus olhos na agenda e procurei aquele nome que outrora me fizera suspirar e enviei. A resposta não tanto tempo durou para chegar, era negativa porém com um tom hipócrita — “Te procurei e você me ignorou, agora quer que eu fique mendigando a sua amizade”. — observo, paro a respiração por alguns instantes ligo pra ela. Chamada rejeitada quase no mesmo instante seguida de uma desculpa qualquer para não atender via mensagem. Aos poucos vou compreendendo o que se passa e dou minha carta final: “Quer ser um capítulo apenas de uma vida, um personagem que apenas entra e vai embora, assim, do nada? Espero que não. Estou de mãos estendidas a você neste momento, se precisar, esta é a hora, mas pense de coração pois as oportunidades terá uma hora que não haverão mais e amanhã nem poderá mais existir, agora depende de você aceitar ou rejeitar a ajuda, o orgulho pode ser mais forte mas quem gosta de alguém de verdade nunca o abandona, seja pai, mãe, irmão, amigo ou o que for”. Os olhos se enchem de lágrimas, me deito depressa, ofegante.

Dia 8, Setembro.

Estava aqui a pensar o porque as pessoas só dão valor nas outras quando elas as perdem. É o que parece que está acontecendo. Ontem à noite recebi uma mensagem — “Então é assim, eu vou saindo aos poucos da sua vida?”— e parei por uns instantes e me veio um flashback na cabeça pensando sobre os meus últimos 14 meses que passaram e veio a imagem de mim mesmo parado num campo cinzento e uma luz, esperança, a rodear. Então respondi — “Agora está na hora de eu procurar a minha felicidade pois já abdiquei dela muitas vezes para ver a sua felicidade e dizem que quem a gente ama de verdade, a gente quer ver feliz mas hoje eu preciso do meu tempo e do meu espaço de volta pois as coisas mudam, o tempo muda e nós não somos mais os mesmos e não conseguirei mais voltar ao que eu era, estou machucado e preciso me curar e isso o tempo que vai dizer o que acontecerá e enquanto isso penso que o que for verdadeiro, vai durar para sempre e apenas se afasta, já aquilo que não é, vira apenas lembrança e se restar a saudade, valeu a pena.” — então o silêncio foi continuo nas horas seguintes até o presente momento. E é o silêncio que às vezes corrói e que às vezes muda o que estava errado, mas ele traz dor no início mas como toda dor, tem um limite e ela para de ser sentida e assim, ela acaba junto com o silêncio, o tempo e as atitudes. Seria assim que vai mesmo sair da vida? Posso mais dizer nada, devo rezar, sorrir e contar com quem está ali do lado. Felicidade é temporária e cada um tem a sua. Então ouço “Antes das Seis” e ao som das cordas diversas fico confortável porque inconseqüentemente ela explica o que realmente aconteceu. Então, “Por Enquanto” a saudade se resume em uma música: “Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar, que tudo era pra sempre, sem saber, que o pra sempre, sempre acaba”. Vamos voltar pra casa? Aos poucos voltando a ver o sol, a tempestade acabou dentro de mim.

Dia 7, Setembro.

“Me segure bem firme”. Pedi a você naquele dia tão especial para mim e eu acho que para você também. Eu estava sentada no chão olhando para você e aquele sorriso lindo que sempre me encantou. Estávamos num parque e parecia até uma cena de filme onde ninguém mais estaria por perto para nós atrapalhar. Não existia tantas coisas como já existem hoje, e eu aqui parada e refletindo sobre tudo o que passou. Foi a melhor tarde da minha vida, sem mais e nem menos.

Seus braços fortes sempre me encantaram, me faziam suspirar… Me fazia sentir aquele momento como o melhor momento do mundo feito apenas por quem precisava: Eu e você.

Tudo bem, já estou bastante conformada com o fato de você ter que ir embora da minha vida assim. Tudo bem também que não superei o fato e estou aqui ainda sozinha em meu apartamento vivendo neste mundo, mas sei que vou me superar cada dia mais e mais.

Ontem não me sentia tão protegida, hoje meus pensamentos mudaram, me vi uma outra pessoa, alguém determinado a mudar de pensamentos, atitudes e saber separar as escolhas que tenho feito. Quem mais sofreu nesta história toda de não correr atrás de algo novo e arriscar uma nova aventura, foi eu.

Escrevo aqui sentada em minha poltrona, pretendo abandonar esse meu vício de fumar tanto que tenho e quero hoje viver um novo dia de verdade.

Feriado aqui no meu país, as pessoas estão ali fora e eu observo pela janela todos eles com suas famílias, felizes… Tomei coragem mais uma vez hoje de olhar o céu e ele estava simplesmente espetacular: Um azul tão vivo e tão lindo que jamais teria visto antes em contraste com aquelas nuvens que mais pareciam algodão doce.

Me lembro de minha infância como em um Flashback qualquer que todos podemos ter de momentos assim. Tá, muitas vezes estava ali no meu canto sozinha, meus pais nem ligavam para o que eu fazia e quando ligavam para isso, era porque eu tinha feito algo muito feio. Mas é dali, direto do início da minha juventude que eu tiro uma lição, juntando o antes e o agora: O céu ali em cima que está tão belo e tão vivo nunca precisou de outro alguém para que ele realmente existisse, ele simplesmente existe e encanta quem o está observando.

Parei por um momento, fui ao banheiro e com uma poça d’água chão me observei no reflexo que ela fazia. Minha face já não era a mesma de seis dias atrás quando estava praticamente mobilizada com o meu pensamento somente em você.

Hoje quero mais, quero mais viver, quero sorrir novamente, quero saber amar… amar a pessoa que mais deveria ter amado desde o início: Eu mesma. Vou começar esta reforma em mim e mostrar pra mim mesma que eu posso e que eu devo continuar a minha história e dar uma chance pro destino para aquilo que nestes últimos dias ele colocou em minhas mãos e eu não estou aproveitando simplesmente por medo de alguma coisa que um dia já aconteceu comigo.

Pretendo viver mais, quero ter filhos uma hora, saber como é aquela sensação que dizem que é incrível de ter uma criança em meu ventre dando pra mim o maior presente da minha vida que será gerado de dentro de mim. Mas antes de tudo isso, vou respirar e explorar neste novo mundo que estou me possibilitando entrar nele com este sorriso no rosto e por enquanto de mãos vazias.

Vou me amar um pouco mais e quem sabe, alguma hora vai surgir alguém que vai querer me ouvir e me fazer sorrir por outros motivos… Mais uma vez.

ps: Estou bastante confiante em mim

Dia 6, Setembro.

Sonhei.

Hoje eu tive a oportunidade de conseguir dormir e consegui sonhar. Talvez já tenham dito algumas muitas vezes que eu sou uma criatura que está sendo envolvida pela insônia e pelo desespero de ficar noites e mais noites sozinha. Tudo bem que eu tenha conseguido dormir em alguns dias anteriores, mas estes dias apenas foi um preparativo para aquilo que eu iria ver agora.

Tinham montanhas verdes e tão belas com poucas árvores, lá ao fundo daquela paisagem e uma cidade rodeada por belos alpinos e outras árvores que deixavam o ambiente com um tom parecido com um parque florestal qualquer da América do Norte mas com prédios construídos no meio. Prédios baixos com no máximo três ou quatro andares, a maioria de cor branca onde tinham um belo destaque.

Encantei-me com aquela visão, e com alguns belos espelhos d’água que tinham próximos as estradinhas feitas com pedaços de pedra.

Havia uma pequena colina onde na verdade, em baixo daquela parte gramada, tinha uma grande biblioteca. Uma porta de madeira bem clarinha contrastando com o marrom-terra que estava predominante na parede.

Adentrei-me naquele lugar e já fui observando tudo o que tinha ali na minha volta. Não encontrei absolutamente ninguém até então. Comecei a observar ainda um pouco mais aqueles livros que estavam nas prateleiras por todo lugar. Entrei numa sessão onde apenas tinham livros de poesias, das mais diversas possíveis. Puxei um livro aleatoriamente e comecei a ler ele vagarosamente sentada ali no chão mesmo.

Fiquei algumas horas ali deliciando o poder daquelas palavras, somente eu e o meu mundo imaginário.

De repente, eis que surge uma pessoa, a primeira que eu havia avistado em todo o meu tempo por ali. Com uma simples roupa, toda branca, parecendo um longo vestido grego, uma barba a fazer bem rala em sua face e sua pele com um tom de chocolate. Sorri para ele e ele me disse com um sorriso no rosto: “Muitos que aqui vem, entram para a loucura e não sabem mais onde estão, só sabem que eles somem e nunca mais conseguirão encontrar o caminho de volta para esta cidade”.

Bastava isso. Acordei um pouco assustada e ofegante e com toda esta imagem em minha cabeça e então o meu dia também começava. Era uma terça-feira qualquer deste mundo e mais uma vez eu queria me permitir sair de casa um pouco mais. Recolhi o pouco do dinheiro que eu tinha ali comigo e desci mais uma vez aquelas escadas. Segurando pelo corrimão… Enfim, por um momento desviei a minha atenção e já não lembrava mais de nada. É como se eu tivesse voltado a dormir e como se o sonho fosse apenas pausado naquele momento e retomado:

Não via mais ninguém, somente eu ali no chão e aquele livro fechado em meu lado. Agora tinham pessoas e eu estava ali como se fosse transparente para todos. Vários tropeçaram em mim e parece que nem ao menos sentiram, exceto uma pequena criança que olhou em meus olhos e deu um sorriso bobo.

Foi ai onde eu acordei novamente deste sonho.

Estava deitada numa maca de um hospital que não saberia exatamente dizer mais onde ele era, mas apenas sei que estava lá.

Chegou um médico para mim e me disse: “Você levou uma queda feia, senhora”, ou seja, eu havia desmaiado enquanto tentava sair de casa.

Alguém foi gentil e me prestou socorro me levando para o hospital. Não sei quem é a pessoa ao certo e nem se foi homem, mulher, um acaso da vida… Descansarei ali nesta noite fria e nova que se aproxima.

p.s: não me sinto protegida

Dia 5, Setembro.

O amor bate a minha porta novamente. Abro meus olhos sinceramente e não sei para onde partir mais esta vez. Sei ainda estou encantada pelos seus olhos e ainda me lembro de nossos últimos beijos e abraços doados um ao outro. Nossos momentos felizes que eu talvez não vá recuperar eles de mim mesma.

É como se fosse uma cena qualquer aonde um rapaz vem me fazer à serenata de amor, eu me encosto à janela e fico lá, ouvindo silenciosamente aquelas palavras ditas pelo coração mas na verdade ele está lá em baixo sozinho nesta noite fria. Senti o cheiro de seu casaco novamente, aquele couro como marca registrada em minha mente onde me lembro ainda de nossa última noite de prazer. Tudo é obra de minha mente neste momento e eu mesma não acredito no que eu estou aqui a pensar.

Minhas lágrimas saem poesias neste momento pedindo por você aqui do meu lado mais vez. Me encontro caindo em depressão querendo o seu colo mas na verdade estou aqui mais uma vez sentada nesta cadeira nesta noite escura, sozinha sem ninguém a não ser eu, meus últimos cigarros, minha luz quase apagada junto com as suas ultimas memórias vivas dentro de mim.

Tentei me libertar de você, sai, tentei conhecer coisas novas, apenas fui ofuscada pelo sol, meus pensamentos exorbitantes e tão alienados por um sentimento único e inesperado chamado amor.

Fomos amigos durante anos. Prometi a você e fiz juras que nunca lhe largaria ali, você que me deixou, mas mesmo assim sentia confiança em suas palavras.

Ainda éramos jovens, por volta de nossos vinte anos quando eu consegui lhe dizer pela primeira vez que eu o amava. Quando disse isso, firmei um compromisso contigo, um compromisso eterno e sem volta pois até hoje eu nunca deixei de te amar, mas este sentimento cresceu a cada dia mais enquanto estávamos juntos. Não queria lhe namorar, queria a sua companhia e a sua confiança aqui do meu lado mas em uma hora repentina qualquer senti um frio na barriga ao te abraçar e meu coração simplesmente saltou para fora de meu peito batendo forte. Consegui ali te ver com outros olhos, os olhos da paixão desta vez, estes olhos que me fazem sofrer até hoje e que me movimentam a cada hora mais e mais e sem dó e nem piedade de estar ao seu lado, esse lado que não está mais aqui comigo e que me joga em lágrimas salgadas que entopem meus olhos de enxergar direito.

Não sei ainda diferenciar o amor e a paixão talvez, apenas sei que tudo isso pode ser algo diferente para nós ou talvez não. Escolhi-te porque sabia me ouvir e eu aprendi a te escutar quando precisou. Tenha a confiança que dali já não seriamos mais um conto de uma música qualquer onde se diz a história de uma bailarina e um astronauta que se apaixonaram tão rapidamente e tiveram de ser separados pelo destino quase instantaneamente.

Amor, se eu ainda posso lhe chamar assim, peço que volte para mim em algum momento e que não me deixe aqui sozinha neste lugar. Eu sei que você sabe muito bem onde eu estou e sabe como você pode chegar aqui e me encontrar, basta você querer. Enquanto isso eu me derreto em lágrimas com minhas poucas roupas e minha diversão de mim mesma e mais ninguém por perto.

Meus pais já se foram para outro mundo onde talvez seja melhor do que aqui e eu continuo sozinha e triste. Ontem achei que a morte iria ser boa comigo mas não foi, ela deixou eu aqui talvez sofrendo só mais um pouco, só mais uma chance para que eu pudesse mostrar a mim mesma que eu poderia me superar, mas não foi exatamente isto que aconteceu, pelo menos ainda. Não sei o que pode vir no meu futuro. Hoje me reservo no direito de ficar sozinha em casa, perdida no meu lugar com mais ninguém para compartilhar nenhuma emoção e nenhum segredo qualquer.

p.s: estou sentindo o seu cheiro aqui de tão longe.

Dia 4, Setembro.

Meia noite. Começa oficialmente a primeira semana por completa deste mês de Setembro. Passei por tantos altos e tantos baixos já nestes últimos dias que já nem sei mais o que eu quero ao certo. Experimentei novamente a minha liberdade do meu ser, tentei novamente simplesmente viver mais um dia, mas mesmo assim ainda fiquei presa ao meu passado próximo que ainda insiste em continuar martelando coisas em minha cabeça sem que eu peça para que continuem ali.

Hoje está fazendo frio, diferente dos últimos dias. Não sei ao certo se o que ando fazendo está certo ou errado, mas a confusão domina a minha cabeça neste momento. Não sei nem ao menos mais se estou triste ou se estou certa e muito menos errada.

Pensei na minha liberdade e o que ela era e aonde chegava afinal, e eu realmente não soube dizer para mim mesma isso. Sempre me considerei tão segura e tão disposta a fazer tudo que esqueci que existiam outras pessoas à minha volta. Perdi aquele que seria meu grande amor, perdi aqueles que me amaram, mas ontem eu aprendi que não posso parar de me amar e nem de sorrir. É difícil e complicado, eu sei, mas eu posso tentar, sei que sim.

Sonhei um pouco nesta noite antes da insônia me dominar novamente. Agora acendi uma vela longa no chão do meu quarto e com um pouco de lágrimas escorrendo de meus olhos escrevi:

Sei que eu errei, meu senhor
Peço-te que não me desprezes, por favor
Tenha piedade de mim e de minha consciência
Daquilo inexplicável ato que fiz, até pela ciência

Acredito que eu tenha me arrependido
Daquelas coisas que no passado eu fiz
Tantas vezes tido mentido
Acredite no que este poema diz

Falo meias verdades para vos encantar
Não foi feito disto somente para cantar
Versos bobos de minha inocência
Que perdi com a minha paciência

Aguardo aqui em silêncio uma resposta
Não me garanto mais que nesta aposta
Possa sair ganhadora de tudo
E nem ao menos que possa mais entendo o mundo

Fiquei pasma por alguns instantes. Deixei que as lágrimas terminassem de me conduzir. Novamente meus olhos ficaram vermelhos e inchados de chorar, desta vez não mais por amor mas sim por puro arrependimento do que estava em minhas mãos e eu deixei escapar assim, tão facilmente por meus dedos por causa de coisas tão ridículas das que acabei sentindo.

Respiro fundo mais uma simples vez e aguardo o meu coração bater um pouco menos forte. De repente sinto algo diferente em meu peito. Como se algo estivesse atravessando com dificuldades o meu coração. Fiquei branca em um único instante. Neste exato momento me sentei encostada na porta de meu quarto com a sala. Meus olhos de uma forma estranha começaram a parecer como se fossem fogos ou raios, não sei. Minha visão ficou branca por alguns instantes.

Não sei exatamente o que havia acontecido comigo, somente sei que senti um alivio imenso ao sair daquilo que passei.

Depois de quase uma hora, tentei novamente escrever mais algum verso mas eu não conseguia, apenas ficava ali parada e estática olhando para aqueles quatro versos implorando clemência de algum lugar, seja dos céus ou seja da própria terra.

Estou aqui pensando comigo mesma se isto seria algum sinal de se eu devo ou não sair de casa novamente. Não sei. Hoje apenas no repouso estarei, enquanto durar.

Acredito que o que está acontecendo comigo é algo que deveria realmente acontecer e me deixar refletir um pouco sobre a vida. Pensarei no certo e no errado neste domingo. Em silêncio absoluto ficarei deixando apenas a minha mente me dar uma surra tremenda de tal forma que com isso eu possa aprender o que está certo e o que está errado comigo.

Espero poder ter forças para continuar escrevendo.

p.s: tenho medo de morrer

Dia 3, Setembro.

Consegui dormir tarde depois de ontem. As notícias não foram as melhoras que eu poderia ter recebido, com lágrimas mais uma vez e meu rosto cada hora mais inchado e mais esbranquiçado.

Já faz um bom tempo que não sei mais o que é a vida fora de meu apartamento e faz também tanto tempo que não vejo mais o sol. Fechava minhas janelas, cortinas e me fingia de morta durante tanto tempo que nem sabia mais quem eu era.

Resolvi mudar. Não sabia que horas eram e muito menos como o tempo realmente estava. Peguei as minhas botas, e um vestido qualquer, verde e joguei sobre a minha cama. Tirei a calcinha, minha única peça de roupa que vestira naqueles últimos dias solitária e me dei o luxo de mais uma vez entrar debaixo do chuveiro com uma dosagem muito grande de coragem. Estava extremamente gelado quando liguei e aos poucos foi se aquecendo.

Vagarosamente deixei que a minha mão voltasse a experimentar o meu corpo e a me descobrir, deixando-a chegar a pontos que me arrepiava quando vagarosamente me tocava. Descobri que eu poderia, de verdade, voltar a sentir prazer comigo mesma e um momento tão intimo, me redescobrir, que nem uma adolescente que acabara de descobrir que ela poderia ser tão feliz sozinha quanto com um parceiro junto a ela.

Fiquei por aproximadamente uma hora com aquela água caindo na cabeça, sentada e encostada na parede com meus olhos fechados, relembrando meus únicos momentos sóbrios de felicidade comigo mesma.

Peguei a minha toalha, me enrolei a ela e deixei que o tempo me ajudasse a me secar enquanto abria a janela de meu quarto junto com as cortinas dele. Estava de dia. Meus olhos arderam e deixei que a toalha caísse, para que eu pudesse sentir o meu corpo nu junto ao vento e ao ar renovado daquela cidade.

Percebi que lá de baixo, um rapaz me observaria nua, admirando novamente tudo, mas não comentei nada. Deixei que ele me visse sem nenhum receio, apenas ignorei o fato.

Alguns instantes depois, eu peguei uma calcinha nova de dentro de meu armário, de renda, e coloquei a minha roupa em seguida. Estava destemida a realmente sair. O maior problema que eu tinha era justamente que não conseguiria mais falar nenhuma palavra sequer mais e muito pior me comunicar com as pessoas à minha volta que porventura viessem a falar comigo.

Tímida, desci aquelas escadas nos dois andares de meu apartamento, torcendo para que ninguém viesse a aparecer enquanto descia, justamente para não ter a chance mais de me esbarrar com alguém que seja um conhecido meu, mas que eu possa ter esquecido devido a minha mente ainda tão confusa.

Foi difícil conseguir andar de verdade. Estava magra e qualquer cheiro anormal, me deixara com desejo insaciável de querer me alimentar, o que talvez não fosse o possível.

Chegando em baixo, senti uma brisa leve em minha direção e novamente ouvi os passarinhos. É uma manhã de sábado. Algumas pessoas estavam correndo numa calçada que ficava justo ali em frente ao prédio, cercada de árvores, que nem em um cenário europeu de um filme qualquer de romance. Sabia que lágrimas iriam novamente escorrer do meu rosto, pois eu estava com tantos sentimentos na cabeça que nem sabia mais pensar direito e me emocionei com aquilo que eu via novamente após tanto tempo. Nada mudou.

Sentei-me em um banco e fiquei observando o tempo por um breve instante. Não fora perda de tempo, ainda mais que eu sabia que poderia estar fazendo a coisa certa, ganhando uma nova vida, talvez, uma nova chance para mim mesma.

Dei-me o luxo de ir a um comercio ali próximo. Mal sabia caminhar direito. Esbarrei-me sobre tantas pessoas que pensei que eles achavam que estaria bêbada, mas não. Respirei fundo, sabia que ainda tinha alguns trocados comigo e comprei um pedaço de bolo para comer. Fiquei lá deliciando aquela pequena fatia que poderia comprar e observei o tempo passar lá fora, ao pé de uma árvore, um Ipê com flores rosa que estavam caindo e deixando o solo colorido.

As barracas desmontadas, as pessoas se foram e a noite mais uma vez chegou. Estava eu estática vendo tudo o que eu estava perdendo. Perdendo o meu tempo sozinha e chorando por amor e por uma perda que tive.

Pensei: “Não acredito que eu fiquei chorando tanto, mas tanto mesmo por um amor sendo que na verdade a gente talvez nem se amasse direito, era apenas desejo e nada mais. Agora estou aqui perdida neste mundo em que eu poderia ter vivido muito mais e me deixando falecer por dentro. Fui tão idiota quando deixei partir a minha família e aqueles que realmente me ouviam e deixava serem ouvidos. O meu respeito foi embora quando eu resolvi abandonar todos eles por causa de meu orgulho babaca. Pobre coitada e bem aventurada daquela que deixou o tempo ser o devorador de coisas sem perceber.”

De volta ao meu apartamento, vejo aquele rapaz que deixei me ver nua inocentemente durante a manhã. Passo por ele como se fosse qualquer pessoa que poderia esbarrar normalmente, mas com um semblante envergonhado e um pouco diferenciado. Ignorei-o. Voltei ao meu recinto, retirei a minha roupa, nua estava novamente.

Deixei que a janela ficasse aberta para eu saber que eu poderia ter asas que nem um passarinho e poder ir e vir a hora que quisesse. Poderia sentir o frio ou o calor daquela noite em todo o meu corpo sem mais nenhuma influencia humana. Deixei que o tempo me conduzisse. Tentarei me repousar mais uma vez.

p.s: eu sei que posso ser feliz

Dia 2, Setembro.

Consegui finalmente dormir no silencio de meu apartamento, por mais que a sua voz ainda esteja em minha cabeça sussurrando cada hora mais alto. Consegui nas minhas humildes três horas de sono sonhar com aquele mundo que pedira alguma hora do meu passado recente.

Talvez meus sonhos sejam na verdade pesadelos de meus medos mais terríveis que posso vir a ter e a acreditar, mas por mais que me mostrem perdas, me sinto confortável sobre tudo isso que um dia passei antes.

Ainda não sei a minha razão de tanto ter amado alguém, poderia ser passageiro ou não, eu sabia de tudo aquilo e simplesmente eu já não acreditava em mim mesma pelo jeito. Perdi o meu amor próprio e com as pessoas que me amaram de verdade em alguma hora de minha vida, ignorei os meus amigos mais íntimos e absorvi em minha mente apenas aquilo que uma hora iria me deixar assim, mas agora eu sei que isso tudo não passava de um momento simples de minha vida e tenho ainda que aprender a superar ele.

O amor não é tudo, percebi em certo momento de minha vida monótona agora, depois que certos acontecimentos vieram a entrar em minha cabeça de forma tão repentina. Estava presa no amor e ignorei outras coisas que eram mais importantes para mim.

Recebi uma ligação quase uma hora depois de ter despertado com uma notícia que enfim, me fizera chorar mais ainda e me inferiorizar naquele meu mundinho. Sabiam onde eu estava, aqueles que eu deveria considerar como meu bem mais precioso: Meu leito materno. Infelizmente a noticia que não era das melhores, era apenas uma tia lamentando a perda de meus pais em um acidente de carro enquanto vinham me visitar.

Moravam a uma cidade com aproximadamente cem quilômetros de distância daqui. Me pego refletindo sobre todo o meu passado e minha infância que sofri e fui negada por muitos, inclusive por eles mesmos. Sempre fingia que eu, a filha mais velha, estive bem e feliz ao lado deles até deixar de lado aquela vida. Não sabia que por mais que eles fossem o que eram, eu era feliz e tinha do meu lado duas pessoas que sempre me amaram de verdade.

Foram muitos os tapas, as brigas e as discussões que tivemos que me feriram, me judiavam e me faziam me sentir infeliz, mas nenhuma delas foram piores que as surras que vim a levar da vida.

Agora eu sei que não estão mais comigo e aqui me encontro sozinha, como durante muito tempo me senti, mas ainda percebo que suas almas ainda podem perambular à minha busca.

Eu poderia me esconder mas sei que não conseguirei pois estão tão morta em mim que já não conseguiria mais me levantar desta cama, nem ao menos para me levar à aquele sofá onde poderia gastar a minha última carteira de cigarros.

Meu rosto estava enrugado e vermelho por causa do choro. Por mais velha que eu seja eu sei que a minha aparência ainda é tão jovem.

Rezei pela primeira vez nestes últimos meses em que eu estive sozinha, após mais uma tentativa de dormir, por mais em depressão que eu tenha caído.

Lembrei de novo de minha infância, vivendo junto de meus dois irmãos menores em um dia em que me cortei gravemente brincando com facas. Pensava que eu ia morrer naquele instante, mas eles, meus pais, me ajudaram. Foi um momento de desespero que eu não sabia o que fazer, mas eles sempre estavam ao meu lado e eu nunca dei uma chance a mim mesma quando estive com raiva ou eles também de mostrar que éramos felizes por mais diferentes que fossemos.

Minhas lágrimas voltam a cair pelo meu rosto agora, neste breu tão gélido, onde a possível e única iluminação seria dada por meus pensamentos ou por velas acendidas em cima de meu guarda roupas.

Agora eu estou tendo a certeza de que sei o que é saudade. Tive de experimentar isto na pele da forma mais intensa possível para saber a verdade. O amor de um rapaz ou de uma moça que porventura eu tenha tido, nunca foi pior que esta perda. A perda de quem me gerou onde eu larguei a mão deles uma hora pensando que tudo ia melhorar e não percebia o que eu estava fazendo.

Deixo-me sozinha. Espero que com esta pena nas mãos e este papiro velho eu consiga prestar a minha última homenagem a eles neste triste inicio de setembro.

Não pude dar o meu ultimo adeus
Da forma em que eu realmente queria
Agora me resta apenas pedir a Deus
Que seus corpos sejam envoltos em alegria

Seja lá onde estejam
Saiba que aqui onde estou, fico arrependida
Talvez não tenha sido a sua filha mais querida
Silenciosamente os cortejam

Que venha a chuva ou que venha solidão
Sei que sozinha estou
E que o meu amor que me deixou
Guardarei junto comigo, então

Peço-lhes desculpas
Não teria aceitado de forma mais condizente
Aquelas que seriam as minhas próprias culpas
Sei que tudo o que passou sempre ficará em minha mente

Em forma de versos jogados
E também em minha garganta, pobres, engasgados
Não sei mais o que dizer
E muito menos o que por vocês eu poderia fazer

Arrependo-me de não ter voltado
E de novo, que nem antes ter deixado
Perdi a minha vida, aqui longe

Desculpem-me

Vocês são mais fortes que o amor que por alguém senti
E mais poderosos que o meu orgulho que não perdi
Minhas lágrimas hoje são pelo que não passei
Desde o momento que, eu sozinha, os deixei

Pode dizer neste momento que eu sou orgulhosa e eu aceitarei. Espero fazer algo diferente. Nesta sexta feira, admito, não consegui viver de verdade, apenas fiquei atrelada ao meu passado e as reflexões do que eu muito bem poderia ter mudado antes deste futuro escuro aparecer pra mim.

p.s: estou com medo.

Dia 1, Setembro.

Esta é apenas mais uma noite que estou aqui sentada em minha poltrona. Pego meu cigarro na mesa do lado. A iluminação é baixa, amarelada, vinda de um abajur que está exatamente do meu lado esquerdo. Poupo minhas roupas, pois o calor ainda dominava por mais que o ar condicionado esteja ligado.

Meu rosto único, minha boca seca e meus lábios esbranquiçados revelavam junto à vermelhidão de meus olhos o que eu havia feito naquele dia. Marcas e manchas ainda estavam ali, não dolorido apenas o meu corpo, mas como também a minha mente trêmula do que havia passado.

Meus olhos, singelos e tentando ser inocentes não retratavam a realidade. Eles mentem e não mostram mais o que eu gostaria de ver. Poderiam ter entrado em depressão, a pior depressão de minha vida, mas não. Chorei. Deixei que as lágrimas caíssem vagarosamente pelo meu rosto suave e aveludado, preenchido com um blush natural de minha pele. Meu sorriso não estava mais ali. Perdi-o silenciosamente. (more…)